Por algum motivo, pessoas desconhecidas acreditam que sou uma boa ouvinte. Concluí isso em um rápido levantamento de quantas vezes nos últimos tempos fui abordada por pessoas que nunca vi na vida que estavam determinadas a estabelecer uma conversa.

A lista é grande. Pessoas na espera do ônibus na rodoviária, a faxineira do trabalho, o senhor que sentou ao meu lado na poltrona do ônibus, a semi conhecida da academia… Mas o que me levou a escrever esse texto foi o episódio que vou contar agora.

Estava sentada sozinha terminando minha refeição na praça de alimentação do supermercado. Como aproveito meu horário de almoço para ir para a academia, almoçar e voltar correndo para o trabalho a tempo de me recompor, olhava o relógio a cada 2 minutos (igual ao burrinho do Shrek: já chegou? e agora, já chegou?) para checar se não ia me atrasar. Eis que de repente surge uma senhora de cabelos brancos com sua bandejinha nas mãos. De onde ela surgiu eu não sei, pois estava muito ocupada imersa em algum aplicativo qualquer. Com um sorriso, ela me pergunta se tinha algum problema se sentar em frente a mim e dividir a mesa para o almoço. Discretamente olhei para os lados: ao menos seis mesas vazias. Em um milésimo de segundo, vários pensamentos percorreram minha mente: Não, não pode ser sério. Será que ela não enxerga que pode sentar em qualquer outra mesa? Logo agora que eu preciso engolir a comida para voltar ao trabalho. Obviamente não falei nada disso. Inclusive, enquanto essas coisas se passavam pela minha cabeça, minhas mãos já tiravam a mochila que ocupava a cadeira e minha boca soltava um: Claro, pode se sentar aqui!

Um comentário sobre o buffet aqui, outro comentário sobre o dia ali… Quando vi já estava ouvindo da senhora todos os motivos que levaram sua filha a destinar a sexta-feira ao descanso e não ao trabalho. Ah, e também já sabia onde seu neto estudava, em qual bairro e rua a senhora morava, quantas irmãs tinha e qual delas a deixou sozinha no almoço. Foi aí que eu entendi: não, ela não queria sentar em nenhuma daquelas mesas vazias. Ela queria uma companhia. Queria alguém para conversar. Logo eu, que odeio almoçar sozinha, fui me irritar com uma senhora fugindo justamente do que também me incomoda. No fim, não me atrasei pro trabalho. E o que era para ser só um almoço que hoje eu nem me lembraria – assim como não lembro do que comi semana passada – hoje me faz escrever este texto.

Quantas vezes perdemos a paciência porque algum colega de trabalho puxa papo no momento em que tudo que queremos é nos isolar em nossos fones de ouvido e trabalhar em modo automático? Quantas vezes nos irritamos quando alguém vem falar conosco bem quando estamos lendo aquela notícia – super importante – no site do Hugo Gloss e atrapalha nosso raciocínio? Ou então até mesmo quantas respostas secas demos no dia de hoje para evitar que uma conversa aparentemente banal se estendesse?

Não me entendam mal, é claro que às vezes certas coisas são inconvenientes e nos tiram do foco que precisamos naquele determinado momento. As pessoas ao nosso redor também precisam de inteligência emocional e empatia para perceberem quando simplesmente não estamos com o mesmo humor ou ânimo que eles. Mas o que eu digo aqui, é: estamos fazendo com que nossa rotina seja preenchida de dias sucessivos com respostas secas, triviais, que não dão margem para a troca de experiências?

No fim das contas, é para isso que vivemos: ter experiências, dividir experiências, e pasmem, ouvir a experiência dos outros para ajudar nas nossas, também. Não é exatamente isso que você faz aqui nesse artigo do Linkedin? Então por que não fazer o mesmo com as pessoas que às vezes gostaríamos apenas de colocar no “modo avião” na vida real? Alguma coisa vamos aprender e somar para nossa vida. Ou, se isso não acontecer, ao menos vamos agregar como ouvintes sinceros na vida de alguém.

E aí surge aquela reflexão que é sempre válida: você é um falso ouvinte? Se analisarmos o sentido cru da palavra, você não é. Seus ouvidos estão ali o tempo inteiro recebendo informações. Se eles funcionarem bem (e eu espero que funcionem), então você é capaz de ouvir tudo que acontece ao seu redor. Mas mais do que ouvir, você está realmente escutando o que o outro está dizendo ou está apenas esperando a sua vez de falar e soltar frases que giram em torno do “eu, eu, eu”?

O maior problema de comunicação é que não ouvimos para compreender, ouvimos para responder.

Você ao menos processou a informação que ouviu e pode afirmar que compreendeu o que a pessoa quis dizer com aquilo? Ou você vai gerar uma frustração no interlocutor quando daqui a duas semanas ele perguntar “ei, lembra daquele livro que eu te falei?” e você sinceramente não fazer a menor ideia do que ele está falando?

Ao me levantar da mesa do supermercado aquele dia do almoço com a senhora, ouvi um gentil comentário de alguém que passou só dez minutos comigo, e que provavelmente não me reconheceria se passasse hoje novamente ao meu lado: “Quando sentei aqui, vi que você era uma jovem muito bonita. Mas não esperava que fosse ainda mais bonita por dentro. Obrigada pela companhia, essa conversa melhorou o meu dia”. Tem algo mais incrível do que mudar o dia de alguém? Ainda mais assim, de forma despretensiosa (ah, e também considerando que praguejei horrores quando a senhora apareceu).

Sem querer bancar a Pollyanna, mas: nem todos nossos dias serão dias bons, mas sempre podemos ter coisas boas no nosso dia. E se não tivermos, não custa verificar se não é porque estamos de ouvidos e coração fechados, não só para os outros, mas para nós mesmos. Tem muita coisa legal acontecendo ao seu redor. É só dar uma chance para as pessoas. São elas que fazem nossa vida valer a pena. 🙂

Post escrito por Júlia

 

2 Comentários. Deixe novo

  • Carolina Pereira
    31 de julho de 2018 22:41

    É tão difícil abrir mão do nosso tempo e dos nossos planos pra ouvir o outro né? Mas é interessante o fato de que sempre que faço isso, não me arrependo. Acho que isso aflora a humanidade que tem se perdido na sociedade e estimula a empatia. Concordo, Júlia! Pessoas fazem a vida valer a pena!

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