Aumente seu número de seguidores por apenas R$29,90. Compre curtidas e visualizações nas suas fotos e vídeos. Baixe esse e-book e aprenda o passo-a-passo para se tornar um digital influencer. Você já leu alguma dessas frases por aí? Deu vontade de entrar nessa? Sim, é muito fácil a gente se deixar seduzir por essas métricas de vaidade.

Ok, eu sei que números são importantes e às vezes essenciais quando estamos falando de páginas de empresas e investimentos como patrocínio de posts. Existem fórmulas pra calcular engajamento, métricas para analisar alcance e uma infinidade de outras formas de mensurar tudo isso. Mas a pergunta do dia é: como está a sua relação com as redes sociais?  

“A @ vê todos os meus stories”. “O @ curte todas as minhas fotos”.  Eu mesma já falei isso diversas vezes como se significasse algo. Já atualizei o instagram da 2BeeKind de 30 em 30 segundos na época que os templates para stories bombaram, só pra ver o número crescendo a cada scroll na tela do celular. Pequenas massagens no ego, sabe? Só que se tornar refém disso é perigoso. Viver em função de qual vai ser a próxima selfie, perder tempo pensando por que a foto X fez mais sucesso do que a foto Y, deixar que os “likes” se tornem a razão da sua vida.

A Sunmi, uma cantora e compositora sul-coreana que eu amo (se você nunca ouviu Gashina, faça esse favor pra você) lançou um MV falando exatamente sobre isso: essa busca incessante e doentia por curtidas que algumas pessoas vivem. No início do clipe, as suas fotos “normais” recebem apenas alguns likes, mas quando ela começa a postar fotos perigosas minuciosamente montadas em uma realidade que não existe, as visualizações e curtidas começam a subir cada vez mais. Ela se alimenta de corações pra se manter viva. Pode parecer absurdo, mas não é o caso de alguns youtubers sem noção que filmam até cenas de suicídio alheio para conquistarem popularidade na internet?

Há algumas semanas o Instagram deu um pequeno bug no contador de seguidores dos perfis, mostrando um número abaixo do normal. Nenhum seguidor foi retirado dos perfis, mas já tinham instagrammers se desesperando real com o fato (que não durou mais do que 24 horas). Comentei nos meus stories sobre não entender o motivo pra tamanho alvoroço sendo que o Instagram já havia se pronunciado que estava trabalhando pra corrigir esse erro, e também sobre como o número de seguidores não muda a qualidade do seu conteúdo. Eis que recebo o seguinte comentário:

Sim, eu entendo que tem muita gente que tem como job full-time produzir conteúdo, e é essencial ter bons números para conquistar futuras parcerias. Entendo também que para alguém que vive do Youtube é necessário ter views, likes e inscrições para o algoritmo te entender como relevante e, consequentemente, te pagar mais. Sei que é gratificante ver o número de pessoas aumentando no nosso perfil. É quase como uma recompensa pelo trabalho diário que é ter que pensar em temas e tópicos pra compartilhar nas redes, seja em forma de posts, stories, vídeos, posts no blog ou e-mail marketing. Já ouvi milhares de vezes “meu sonho é ser blogueira/youtuber também”, mas nem tudo são flores no mundo dos produtores de conteúdo. Tem muita síndrome do impostor por trás. “Por que alguém consumiria meu conteúdo? O que eu tenho de especial?”. Também tem muito malabarismo para arranjar tempo na rotina para se dedicar a algo que nem sempre (no meu caso, quase nunca) traz um retorno financeiro imediato. Horas de lazer, de sono e de momentos que poderiam ser aproveitados com quem amamos são cedidas à produção de conteúdo. Então sim, entendo que números são reconfortantes. Mas como profissional de marketing que já trabalhou com “influenciadores digitais”, posso dizer com propriedade que números estão longe de ser tudo.

Não existem apenas influenciadores digitais. Existem pessoas que produzem conteúdos relevantes para determinado tipo de público, e por isso exercem influência em suas atitudes e em suas decisões de compra. Quanto mais nichado for o conteúdo produzido, mais relevante a pessoa será para o público que a acompanha. Diferente de grandes influenciadores, os micro influenciadores trazem mais verdade e confiança. É mais fácil vocês acreditarem que eu uso Pantene do que acreditar que a Gisele Büdchen usa, né? Mas é claro que se a Gisele mostrar no perfil dela, a marca vai bombar e atingir mais pessoas. Só que hoje não basta só a gente saber de tal marca. A gente quer mais. Queremos saber qual o seu diferencial, se ela é boa pra mim e se faz sentido na minha vida. E é aí que influenciadores menores ganham: na veracidade e relevância pra quem os acompanha de pertinho.

Todo esse assunto só pra chegar no ponto principal: nem sempre quem tem melhores números realmente é mais significativo pra gente. Essa corrida absurda pra saber quem tem mais seguidores ou likes (olá, foto do ovo mais curtida da história do Instagram) não faz mais sentido. E falando em escalas menores, na nossa vida mesmo: não é saudável acreditar que nosso valor está só nesses números. Diferente do que a menina me mandou naquela DM, eu não me acho melhor do que ninguém por não ligar pra isso. Aliás, quem disse que eu não me importo? É um processo constante para conseguir se desprender. Um processo que às vezes envolve saber lidar com a ansiedade e saber se aceitar. Entender que aqueles minutos perdidos no FaceTune deixando a foto sem nenhum traço de celulite na sua perna não vão mudar quem você realmente é. Você não precisa mudar nada esteticamente em você pra ser aceitx pelas pessoas que mais te amam nessa vida (mas se você quiser usar o aplicativo porque se sente bem, tá liberado, viu? o que não pode é achar que você SÓ é bonitx assim). E não são likes que vão definir se aquela foto significa muito pra você. Uma foto com a minha vó tem muito mais valor  mas muito menos likes no meu feed do que uma selfie de biquíni na praia. E se me pedissem pra escolher qual momento eu gostaria de viver de novo, com certeza seria o com a minha vó.

E agora uma pergunta: se amanhã você perdesse todos os seus seguidores, o que faria? Quando pensei nisso me desesperei de primeira. A gente se apega aos números. Afinal, eles não foram conquistados num piscar de olhos, do dia pra noite. Foi um longo caminho, sabe? Mas aí voltei a ser uma fada sensata e fiz o caminho inverso: me coloquei no lugar da pessoa que consome meu conteúdo e que realmente gosta de tudo aquilo que compartilho. Como ela agiria se parasse de me seguir sem saber? É claro que faria falta e iria correr atrás para descobrir o motivo de não estar mais seguindo, ou vasculhar o possível motivo desse sumiço em outros canais. E, no final das contas, não é esse o objetivo que eu deveria ter? Pessoas realmente interessadas no que eu tenho pra falar, que se identifiquem comigo e que escolham consumir o meu conteúdo e não o de 9328 perfis semelhantes por aí.

Não é nas redes sociais que a gente vai encontrar aceitação genuína e construir o nosso amor próprio. Também não podemos jogar essa função nas costas de quem nos segue por lá. Nós não mostramos os bastidores da nossa vida por ali (e nem seria saudável). E é importante lembrar que a prioridade na vida não é quem nos segue no Instagram, é quem segue a vida ao nosso lado nos bons e maus momentos. Quem não vai nos dar unfollow na vida real se o nosso “conteúdo” não estiver mais tão legal e as nossas “selfies” não estiverem mais tão bonitas. A gente precisa se fortalecer com a boa energia de quem corre do nosso lado e de quem nos quer bem, e não com migalhas virtuais. Ninguém aqui é pombo* pra fazer isso, certo?

*Pelo menos eu espero que ninguém aqui seja. Tenho um leve medo de pombos, esses pequenos ratinhos de asas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Preencha esse campo
Preencha esse campo
Digite um endereço de e-mail válido.
Você precisa concordar com os termos para prosseguir

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Menu
× Estamos online!